sábado, 18 de setembro de 2010

Brasil republicano desqualifica seu passado monárquico









Em entrevista a Pedro Paulo Sanches, (IG – Último Segundo - especial) Laurentino Gomes elucida vários pontos sobre a memória histórica brasileira, entre eles: os brasileiros acham que D. Pedro I, depois de abdicar do trono evaporou no ar. Não: ele voltou para Portugal para enfrentar o irmão numa guerra e venceu, tendo tudo contra: 7 mil soldados, enquanto o irmão tinha 80 mil. Revelou-se um general brilhante, que passava as noites nas trincheiras ao lado dos soldados. Morreu em seguida, porque a guerra contra o irmão destruiu a sua saúde. Passou para a história de uma forma meio pejorativa, como se fosse apenas boêmio e autoritário. Em parte era, mas foi também um grande transformador do Brasil e de Portugal. Outorgou ao Brasil em 1824 uma das Constituições mais liberais do mundo na época.

Mas existe um esforço de desqualificação da história. E não é recente: o livro de Paulo Setúbal,As Maluquices do Imperador” (de 1927), já tinha esse viés de desqualificar o passado. Dom Pedro tinha defeitos, como todos os seres humanos, mas é um príncipe que fez nossa Independência aos 23 anos, governou o Brasil em meio a uma crise pavorosa, e depois voltou a Portugal e recuperou o trono que o irmão tinha usurpado.

Mas houve uma ruptura fortíssima no processo político, que é a Proclamação da República. Isso só aconteceu no Brasil. Nos outros países da América, os “pais da pátria” são os mesmos, fizeram a independência e criaram a república. No Brasil, não. Durante 77 anos houve uma monarquia que celebrava seus heróis, e aí vem uma república que rompe com esse modelo. Ela precisa se legitimar, então o que faz? Desqualifica o período anterior. Todos os heróis da monarquia são desqualificados de propósito pela república. Dom João VI vira um bobalhão comedor de franguinhos, Dom Pedro é um sujeito devasso. E aí começa outra construção mitológica, republicana. Acham um sujeito chamado Tiradentes, que passa mais de 100 anos incógnito na história do Brasil, porque tinha sido executado pela monarquia. É uma construção muito bem-sucedida, apela ao imaginário religioso do povo, associando Tiradentes a Jesus Cristo.

É preciso entender as condições adversas enfrentadas por Dom João VI quando chega e cria o Estado brasileiro: havia apenas uma pequena elite ilustrada, e uma grande “geleia geral” constituída por escravos, analfabetos, pobres, mestiços, índios, mulatos, gente completamente despreparada e à margem de qualquer oportunidade.

Mas esse espírito de “viralatismo” do Brasil de hoje se projeta na história também: nossos heróis são “vira-latas”, nossa origem portuguesa é “vira-lata”. É como se a colonização portuguesa fosse pior que a média das outras colonizações, o que é tolice, porque colonização é colonização em qualquer lugar do mundo. Há no passado grandes virtudes, por isso a chamada de capa do1822” é: “como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram Dom Pedro I a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado”. Aí você vira para a contracapa: “…e no entanto deu certo”. O país podia ter se inviabilizado na independência, a chance de dar errado era muito maior do que de dar certo.

Não dá para dizer que a culpa da corrupção é de Portugal, é só o que faltava, estamos conduzindo este país há 200 anos e vamos dizer que o culpado é português? Também não é verdade que a origem colonial defina de modo automático o sucesso ou o fracasso de um país. A África do Sul foi colonizada por ingleses e holandeses e deu no país mais racista do mundo. O Haiti, colonizado por franceses, é hoje o país mais pobre do mundo. Congo, colonizado por belgas, está mergulhado em guerra civil, mesma coisa da Etiópia e da Somália, que foram colonizadas por italianos. É essa síndrome do “viralatismo” que faz com que Portugal “pague o pato”.

(fonte: IG – Último Segundo)

(Trecho resumido - artigo na íntegra no link abaixo)

Um comentário:

  1. Muito bom...
    É horrivel como a História consegue matar e apagar fatos somente por valores ridiculos... O que vc flw q a república realmente faz com a história é sim real, é o q acontece... Faço História e sei muito bem o que é isso. O sistema repúblicano é um sistema cruel que só visa o poder de poucos, fazendo a outra parte chamada de massa ficar sobre a sombra da ignorancia. Após ler sobre a monarquia não tive como negar, a Monarquia era e é um sistema limpo, eficiente e econômico. Me tornando um monarquista convicto! Temos que nos unir e mostrar esse sistema ao público!

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