quinta-feira, 28 de outubro de 2010

D. Pedro II, o mais culto dos líderes brasileiros

Dom Pedro II era um homem de contradições. Alçado ao cargo de imperador com apenas 6 anos de idade, após a abdicação de seu pai, dom Pedro I, em 1831, assumiu de fato o poder aos 15, tornando-se o mais jovem governante que nosso país já teve. Educado desde cedo para ser um monarca, identificava-se muito mais com os intelectuais, nutrindo verdadeira paixão pelas letras, ciências e por conhecer novas culturas e tecnologias. Sua curiosidade levou-o a longas excursões feitas pelo Brasil e para o Exterior, incluindo passagens pela Europa, Norte da África e até Oriente Médio. Agora, o conjunto de registros e diários dessas viagens do imperador brasileiro acaba de ser reconhecido como patrimônio da Memória do Mundo pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

“Trata-se da reafirmação da importância desses registros para a história da humanidade e do legado de dom Pedro II, que sempre acreditou no futuro do Brasil”, afirma Maurício Ferreira Júnior, diretor do Museu Imperial em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Responsável pela inscrição dos documentos para a avaliação da Unesco, o museu guarda 870 itens doados em 1948 pelo príncipe dom Pedro Gastão de Orleans e Bragança, que incluem os 43 cadernos pessoais do imperador, itinerários das viagens, correspondências, controles de visitas, relatórios de despesas, jornais e 67 gravuras de paisagens, pessoas e animais feitas pelo próprio Pedro II. “Nosso objetivo agora é captar recursos para a digitalização desses materiais, para a montagem de uma exposição e posterior publicação dos diários do imperador incluindo todos os elementos, como cartas e recortes de jornais”, conta Ferreira Júnior.

Em mais de 5.500 páginas manuscritas, dom Pedro II registrou em minúcias quatro viagens realizadas pelo Brasil e três ao Exterior. “As excursões brasileiras foram motivadas por questões políticas e pagas pela Casa Imperial”, explica Miriam Dolhnikoff, professora do departamento de história da Universidade de São Paulo (USP). “Já as internacionais foram meramente turísticas, mas bancadas tanto pelas finanças públicas quanto pelo próprio imperador”, completa. Pedro II deixou o País pela primeira vez em 1871 rumo à Europa e ao Egito, após a morte de sua filha Leopoldina em Viena, na Áustria. A ausência de 11 meses do monarca causou mal-estar entre a elite brasileira da época. “Fazia menos de um ano que a Guerra do Paraguai havia terminado e o Parlamento estava em guerra em torno da Lei do Ventre Livre”, diz Miriam A lei acabou aprovada no mesmo ano pela Assembleia-Geral e sancionada pela princesa Isabel, que, aos 24 anos, assumia o governo durante a excursão de seu pai.
A segunda viagem de dom Pedro II começou nos Estados Unidos em 1876. Lá o monarca compareceu à comemoração dos 100 anos da independência americana e deslumbrou-se com os avanços tecnológicos daquele país. Nessa ocasião conheceu Thomas Edison e Graham Bell, que havia inventado o telefone, e teria testado a nova invenção. Admirado com a engenhoca, fez questão de que o Brasil fosse um dos primeiros países do mundo a possuir um telefone. Depois, seguiu rumo ao Canadá, à Europa, incluindo a Turquia, o Egito novamente, e por fim chegou à região do Oriente Médio, onde visitou Síria, Líbano e Palestina, incluindo Jerusalém. Ao todo o imperador permaneceu um ano e seis meses entre paradas e percursos feitos de navio, trem e carruagem.
A última escapada para a Europa, em 1888, teve como principal motivo a recuperação de sua saúde. Sofrendo de graves febres em decorrência da diabetes, Pedro II foi aconselhado por seus médicos a passar um ano e dois meses na Europa, entre Alemanha, Itália e França. Segundo a antropóloga Lilian Schwarcz, autora da biografia “As Barbas do Imperador”, os relatos do monarca dos trópicos mostravam sua vontade de registrar tudo o que via e uma sede inesgotável de conhecimento. “Mais do que ser recebido por czares e reis, Pedro II gostava de conversar com as pessoas comuns, visitar escolas, igrejas, hospitais, fábricas e até prisões”, diz Lilian. “Seus diários são um retrato do século XIX através dos olhos de nosso imperador itinerante.”

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